Marina

Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.
Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro. Amigos, companheiros, professores e até a polícia lançaram-se na busca daquele fugitivo que alguns já julgavam morto ou perdido por ruas de má fama como num lapso de amnésia.
(…)
Não sabia então que o oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca.
Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.

É com estas palavras que Ruiz Zafón nos transporta a uma Barcelona no início de 1980 na companhia do Óscar e nos apresenta Marina, a sua amiga.


Com o toque de génio, numa escrita simples e ao mesmo tempo profunda que já tinha conhecido em A Sombra do Vento, este livro voltou a agarrar-me desde as primeiras páginas e foi difícil de largar até conhecer o desfecho destas personagens. 

A premissa era simples: um rapaz que conhece uma rapariga, tornam-se inseparáveis e vivem uma aventura numa Barcelona perdida algures no tempo no final da década 1970. Quando comecei a ler vi rapidamente umas quantas semelhanças com A Sombra do Vento, mas este livro é em tudo diferente desse. Se por um lado temos na mesma um adolescente como protagonista, toda a restante ação e desenvolvimento têm lugar num outro universo. As semelhanças podem estar lá noutros momentos, mas a magia desta narrativa é completamente diferente e o seu desfecho foi, para mim, algo imprevisível. Se por um lado, devido, não só ao título do livro, mas também às primeiras frases que nos apresentam Marina, estava subentendido que o destino de Marina era um tanto ou quanto incerto, e apesar de lá pelo meio haver uma luz do que poderia vir a acontecer, confesso que ao chegar ao final e perceber o que realmente sucedia fiquei algo surpreendida, mas são estes pequenos pormenores que fazem com que estas estórias passem de “vulgares” a especiais. Percebo perfeitamente quando Ruiz Zafón afirma que de todos os livros que publicou este é um dos seus preferidos.

Classificado, muitas vezes, como uma estória para crianças, para mim vai muito para além disso. É um livro que apaixona qualquer adulto! Recomendo, absolutamente, a leitura desta estória arrebatadora, que mistura a realidade e fantasia em diversos aspetos e que muitas vezes nos deixa a pensar nesta frase inicial e no seu significado…

Maratonas Literárias #1

Não é a minha primeira maratona. Mas sendo a primeira maratona deste ano achei que seia uma boa altura para começar um “registo” mais pormenorizado do meu desempenho nestes pequenos passatempos.

Esta primeira maratona de 2014 tem início às 00h00 do dia 1 fevereiro e termina às 23h59 do dia 9 fevereiro. É de equipas e como desafio opcional temos de ler pelo menos um livro com a capa da cor da equipa (preto, azul, branco ou verde).

Tendo ficado na equipa verde, ainda ponderei se realmente queria participar no desafio pois na minha pequena biblioteca não constava nenhum livro com a capa verde. Depois de várias voltas e pedidos de opinião, resolvi aceitar mesmo o desafio.

Apesar de os planos normalmente saírem furados (LOL) a partir de agora prometo ser mais organizada e cumpridora 🙂 e desta vez vou tentar ler estes dois livrinhos:



Espero conseguir! 
Boas leituras 😉

O Inverno do Mundo

Olhou pela janela estilhaçada. Na rua, juntava-se uma pequena multidão. Entre os espetadores, viam-se dois polícias a conversar. Carla gritou-lhes: – Socorro! Socorro! Polícia!
Eles viram-na e riram-se, o que a enfureceu. A fúria abrandou-lhe o medo, e olhou de novo para fora do gabinete. O seu olhar pousou no alarme de incêndio da parede. Ergueu a mão e agarrou a alavanca.
Hesitou, pois não se devia acionar o alarme a não ser em caso de fogo. Na parede, um aviso recordava as pesadas penas.
Puxou na mesma a alavanca.
Por um momento, nada aconteceu; talvez o mecanismo não funcionasse.
Em seguida, ouviu-se uma buzina sonora e áspera, cujo som subia e descia, enchendo o edifício.
Quase imediatamente, as pessoas da Sala de Conferências apareceram ao fundo do corredor, encabeçadas por Jochmann. – Que diabo se passa? – questionava, irado, gritando por cima do som do alarme.
Um dos Camisas Castanhas declarou: – Este pasquim judeu e comunista insultou o nosso líder e vamos fechá-lo.
– Saia já do meu escritório!
O Camisa Castanha ignorou-o e entrou noutro gabinete. Logo em seguida, ouviu-se um grito de mulher e um estrépito que parecia uma secretária de metal a ser virada.
Jochmann virou-se para um colaborador: – Schneider, chama imediatamente a polícia!
Carla sabia que isso de nada serviria, a polícia já ali estava e não agia.
(…)
Carla apercebeu-se de duas pessoas ali perto. Ergueu o olhar e viu uma mulher aproximadamente da idade da mãe, muito bonita, com um ar de autoridade. Conhecia-a, mas não conseguia identificá-la. A seu lado, via-se um rapaz com idade para ser seu filho. Era magro, não muito alto, mas fazia lembrar uma estrela de cinema. Tinha um rosto bonito, que podia quase ser considerado demasiado belo, não fora o nariz esborrachado e torto. Os recém-chegados pareciam chocados e o rapaz estava pálido de fúria.
A mulher foi a primeira a falar, usando a língua inglesa: – Olá, Maud – saudou. A voz era vagamente familiar a Carla. – Não me reconheces? – prosseguiu. – Sou a Eth Leckwith, e este é o Lloyd.

Absolutamente fantástico!

Ao contrário do volume anterior, que me desiludiu um pouco no final, este manteve-me agarrada da primeira à última página. 

Existe um salto de cerca de dez anos e encontramos agora as crianças já crescidas e vamos deixando um pouco de parte a vida dos pais, que tão bem conhecíamos, para os acompanhar a eles (os que já tinham nascido no livro anterior e os que nasceram entretanto). Continua a ser óbvio que, apesar de serem família oriundas de diversos países (Rússia, Inglaterra, Alemanha e EUA) todos têm ligações em comum e mais cedo ou mais tarde dão-se encontros que seriam de certo modo impensáveis (mas já sabemos que o sr. Follett é perito em tornar possível o impossível…).

Cidade Inquieta

Muito em breve, iria poder desfrutar daquele estilo de vida em qualquer parte do mundo. Acabavam-se as salas de espectáculos húmidas de suor e com coristas amadoras. Acabava-se a prostituição dissimulada. Decidira fugir meses atrás. Aquela era a última noite. No dia seguinte estaria livre.
Perguntava a si mesma se iria ter saudades daquilo — do poder que sentia no palco, do desejo nos olhos dos homens quando gritavam o seu nome: «Amira!»
Amira Luz. A beldade espanhola de pele escura e olhos provocantes. O cabelo comprido e acetinado. O nariz angulado como uma lâmina. O corpo cheio de curvas sensuais. Amira Luz — a deusa do Sheherezade.
Sim, iria ter saudades. Estava em Las Vegas, onde tudo era sensual. A voz de Sinatra. Os diamantes no pescoço de uma mulher. Até o fumo de um cigarro acabado de acender. Podia bambolear-se pelos casinos e ouvir os murmúrios espalhar-se atrás de si. Em Las Vegas, era uma estrela. Se abandonasse as luzes da ribalta, não poderia voltar. Mas deixaria de ser uma prisioneira.


Depois de Segredos Imorais me ter deslumbrado pela simplicidade da escrita e a capacidade de nos surpreender e agarrar a todo o enredo, estava ansiosa por viajar por esta Cidade Inquieta.


Com o mesmo estilo e as mesmas divisões (quatro partes), pois costuma dizer-se que “em equipa que ganha não se mexe”, Freeman transporta-nos até à cidade do pecado e deixa-nos envolvidos num misterioso crime que aconteceu há mais de quarenta anos mas que continua por explicar e com umas quantas pontas soltas…

Não sei porquê, mas desta vez não estava tão desperta para os pormenores lançados ao longo do livro ou então eles pura e simplesmente não estavam lá, e foi uma completa surpresa perceber o que realmente tinha acontecido em 1967. 

Contudo, desta vez, a conclusão do crime e o desmascarar do principal suspeito pareceram-me um pouco exaustivos, com muitas repetições dos nomes das personagens ao longo do texto o que, a certa altura, me deixou um pouco perdida.

Lola and the Boy Next Door

Once upon a time, there was a girl who talked to the moon. And she was mysterious and she was perfect, in that way that girls who talk to moons are. In the house next door, there lived a boy. And the boy watched the girl grow more and more perfect, more and more beautiful with each passing year. He watched her watch the moon. And he began to wonder if the moon would help him unravel the mystery of the beautiful girl. So the boy looked into the sky. But he couldn’t concentrate on the moon. He was too distracted by the stars. And it didn’t matter how many songs or poems had already been written about them, because whenever he thought about the girl, the stars shone brighter. As if she were the one keeping them illuminated.
One day, the boy had to move away. He couldn’t bring the girl with him, so he brought the stars. When he’d look out his window at night, he would start with one. One star. And the boy would make a wish on it, and the wish would be her name.
At the sound of her name, a second star would appear. And then he’d wish her name again, and the stars would double into four. And four became eight, and eight became sixteen, and so on, in the greatest mathematical equation the universe had ever seen. And by the time an hour had passed, the sky would be filled with so many stars that it would wake the neighbors. People wondered who’d turned on the floodlights.
The boy did. By thinking about the girl.

Depois de ter lido Anna e o Beijo Francês (Anna and the French Kiss) fiquei deliciada com a simplicidade de escrita desta autora, que teve a capacidade de transformar uma história de amor de adolescentes num livro difícil de largar. 

Foi com as expectativas elevadas que peguei neste Lola and the Boy Next Door (do qual, infelizmente, não existe tradução para português), mas confesso que tinha receio de ficar um pouco desiludida. Com premissas parecidas com o anterior, o que poderia trazer alguma desilusão, voltei a ficar “agarrada” a esta extravagante Lola e ao inventor Cricket, the boy next door

Apesar de serem apresentados como trilogia, estes livros são independentes na medida em que, sim a Anna e o St. Clair voltam a aparecer neste livro, as personagens principais são completamente diferentes do livro anterior e toda uma nova trama é explorada e apresentada. ´

Agora resta-me esperar pela conclusão desta trilogia, para perceber de que modo as relações da Anna e do St. Clair e da Lola e do Cricket continuam a evoluir e para conhecer o novo casal… 

A Sombra do Vento

Ainda me lembro daquele amanhecer em que o meu pai me levou pela primeira vez a visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Desfiavam-se os primeiros dias do Verão de 1945 e caminhávamos pelas ruas de uma Barcelona apanhada sob céus de cinza e um sol de vapor que se derramava sobre a Rambla de Santa Mónica numa grinalda de cobre líquido.
— Não podes contar a ninguém aquilo que vais ver hoje, Daniel — advertiu o meu pai. — Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
— Nem sequer à mamã? — inquiri eu, a meia-voz.
O meu pai suspirou, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida.
— Claro que sim — respondeu, cabisbaixo. — Para ela não temos segredos. A ela podes contar tudo.
(…)
— Daniel, não podes contar a ninguém o que vais ver hoje. Nem ao teu amigo Tomás. A ninguém.
Um homenzinho com traços de ave de rapina e cabeleira prateada abriu-nos a porta. O seu olhar aquilino poisou em mim, impenetrável.
— Bom dia, Isaac. Este é o meu filho Daniel — anunciou o meu pai. Está quase a fazer onze anos, e um dia ficará ele a tomar conta da loja. Já tem idade para conhecer este lugar.
O tal Isaac convidou-nos a entrar com um leve gesto de assentimento. Uma penumbra azulada cobria tudo, insinuando apenas traços de uma escadaria de mármore e uma galeria de frescos povoados de figuras de anjos e criaturas fabulosas. Seguimos o guardião através daquele corredor palaciano e chegámos a uma grande sala circular onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula retalhada por feixes de luz que pendiam lá do alto. Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros subia da base até à cúspide, desenhando uma colmeia tecida de túneis, escadarias, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma gigantesca biblioteca de geometria impossível. Olhei para o meu pai, boquiaberto. Ele sorriu-me, piscando-me o olho.
             — Bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos, Daniel.
Completamente devorado!É incrível como este livro nos prende desde as primeiras páginas e nos guia numa viagem pelas ruas de Barcelona na companhia do Daniel em busca da vida de um tal Julian Carax que desapareceu na sombra do vento e de quem pouca gente ouviu falar…São estes os ingredientes que Carlos Ruíz Zafón misturou com uma escrita soberba e que fizeram deste livro aquilo que é. 
Fiquei completamente rendida, e recomendo vivamente a sua leitura! 

Inferno

As memórias materializaram-se lentamente, como um borbulhar que emerge das trevas de um poço sem fundo.
Uma mulher de véu.
Robert Langdon fitou-a do outro lado de um rio cujas águas agitadas corriam rubras de sangue. A mulher estava de frente para ele na outra margem, imóvel, solene, de rosto velado. Na mão, segurava uma tainia azul, que erguia agora em honra do mar de cadáveres aos seus pés. O cheiro a morte pairava em todo o lado.
Procura, sussurrou a mulher. E encontrarás.
Langdon ouviu as palavras, como se ela as tivesse pronunciado dentro da sua cabeça.
—Quem és tu? — gritou, mas não emitiu qualquer som.
O tempo urge, sussurrou ela. Procura e encontrarás.
Langdon deu um passo em direção ao rio, mas viu que as águas estavam tingidas de sangue e eram demasiado profundas para atravessar. Quando Langdon voltou a levantar os olhos para a mulher de véu, os corpos aos pés dela tinham-se multiplicado. Havia agora centenas deles, talvez milhares, alguns ainda vivos, contorcendo-se em agonia, a morrer de formas inconcebíveis… consumidos pelo fogo, enterrados em fezes, devorando-se uns aos outros. Conseguia ouvir os gritos lúgubres do sofrimento humano a ecoar através da água.
A mulher moveu-se na sua direção, estendendo os braços esguios, como que a pedir ajuda.
—Quem és tu? — gritou Langdon uma vez mais.
Em resposta, a mulher ergueu as mãos e levantou lentamente o véu que lhe cobria o rosto. Era de uma beleza impressionante, se bem que fosse mais velha do que Langdon supusera — talvez já passasse dos sessenta anos, imponente e forte, como uma estátua intemporal. Tinha um queixo bem definido, olhos profundos e eloquentes e cabelo comprido cor de prata que lhe caía em caracóis sobre os ombros. Usava um amuleto de lápis-lazúli pendurado ao pescoço — uma cobra enrolada à volta de uma vara.
Langdon sentiu que a conhecia… que confiava nela. Mas como? Porquê?

Comecei este livro um pouco de pé atrás, já que o anterior me tinha desiludido um pouco, ao tornar-se demasiado previsível e sem conseguir atingir-me com o fator surpresa dos primeiros. Mas rapidamente percebi que este Inferno tinha um pormenor que ia fazer toda a diferença e, assim, voltei a ficar presa ao livro até à última página.


O estilo característico de Dan Brown, tipo guião de filme, com capítulos curtos tem a brilhante característica de me deixar completamente viciada e nem as descrições, por vezes extensas (e que eu odeio em grande parte dos livros que leio), conseguem aborrecer-me!


Apesar de tudo, o fator surpresa de O Código DaVinci e de Anjos e Demónios continua bem presente e este Inferno ficou um bocadinho atrás…